| 03/12/2009 17h23min
Como diz a música de Katy Perry, cujos versos estão na nossa capa e no título dessa reportagem, uma menina beijar outra pode parecer certo, pode parecer errado, mas, na visão da cantora e de muitas meninas que conversaram com o Kzuka “não é grande coisa” e pode ser “inocente”.
Cena comum em festas alternativas e com público de mais de 20 anos, a pegação entre meninas virou “mania” em balada adolescente. Para aqueles que condenam o comportamento justificando que é apenas um modismo, uma forma de chamar a atenção dos meninos, elas contra-atacam.
– Fico com meninas porque gosto. E é por diversão mesmo, nunca confundi as coisas – diz uma estudante de Novo Hamburgo, do alto dos seus 18 anos.
Sexy, nojento ou ridículo?
Apesar de poucas meninas admitirem que querem provocar os guris, o fato é que sempre junta uma rodinha de machos na volta quando duas gurias estão ficando. Uns acham sexy, outros ficam
envergonhados de admitir. Algumas meninas acham “nojento”,
“ridículo”, outras não se incomodam e confessam até uma certa curiosidade, como Bruna, 17 anos.
– Já tive curiosidade, mas, na hora... Nunca rolou nada concreto – revela a estudante da Capital, enquanto é interrompida pela amiga Camila, 17 anos, que observa: “vai sair no jornal, guria”!
– E daí? – responde Bruna – Todos têm direito a dar sua opinião.
Coisa de emo...
As duas estão acostumadas a ver meninas aos amassos em festas e confirmam que, entre as mais novas, é coisa que rola do meio do ano pra cá. Bruna tenta explicar o comportamento como uma consequência dos grupos conhecidos como emo. Independentemente de aceitarem o rótulo ou não, há grupos de adolescentes que compartilham os mesmos gostos musicais (digamos... um rock mais meloso) e roupas e maquiagens (normalmente escuras, apesar de alguns acessórios coloridos). São esses que a gurizada
insiste em chamar de emo e que carregam outra característica comum: são muito
carinhosos uns com os outros.
A hipótese de Bruna é compartilhada por outros adolescentes e vai ao encontro com uma das explicações da psicóloga Márcia para o fato de casais de meninas/mulheres serem mais facilmente aceitos pela sociedade em geral do que casais de meninos/homens. Para Márcia, as meninas, desde pequenas, estão acostumadas a manifestações públicas de afeto.
– Para mostrar como são “o oposto”, o tratamento entre os meninos é diferente, mais violento. Logo, nos choca menos ver meninas se acariciando – explica Márcia.
Experiências boas e más Psicóloga de questões da família, uma das preocupações de Márcia é o desenvolvimento precoce da sexualidade. Quanto mais cedo o adolescente inicia essas experiências, mais vulnerável a frustrações está. Para a psiquiatra infantil e professora da PUCRS Gibsi Rocha, se uma menina experimenta ficar com outra apenas para repetir um comportamento e ser aceita no seu grupo (atitude muito comum nessa fase), corre mais riscos de se confundir.
– A menina pode sentir um prazer momentâneo e acabar pensando que é gay, o que pode não ser verdade – observa Gibsi.
Sem preconceito
Explicar um fenômeno que ainda é considerado novo para especialistas em adolescentes é um desafio que dá brecha para julgamentos preconceituosos. Cada caso deve ser analisado isoladamente, defende a psiquiatra Viviane Mondrzak. Tudo o que se pode dizer até agora é baseado nas impressões da galera. Para eles, cenas quentes entre meninas já são mais comuns hoje e não chocam tanto. Segundo a maioria dos entrevistados pelo Kzuka, os beijos entre garotas não são encarados como um tabu da sua geração, mas sim um sinal de que vem aí adultos mais cabeça aberta.
Na mídia
> I Kissed a Girl, de Katy Perry (2008)
I Kissed a Girl
(em português, eu beijei uma garota) é o segundo single de Katy Perry em seu primeiro álbum de estúdio, One
of the Boys (2008). A canção foi número um na Billboard Hot 100, na Austrália e no Canadá, e bombou nas pistas por aqui também.
> Onda de selinhos entre celebridades brazucas (2005)
Não se sabe bem por quê, mas atrizes, cantoras e sub-celebridades brasileiras apareceram à exaustão dando selinhos nas colegas em 2005. Preta Gil, Adriane Galisteu e até a veterana Hebe Camargo entraram na onda. E não foi exclusividade da mulherada: rolou com homens também (Suzana Vieira e Bruno Gagliasso) e entre eles (Lúcio Mauro Filho e Bruno Garcia).
> Madonna, Britney e Aguilera, Vídeo Music Awards (2003)
Madonna tascou um beijão na boca de Britney Spears e Christina Aguilera durante a festa do Video Music Awards (VMA) 2003, em Nova York. A performance fez parte da apresentação da diva pop durante Like a Virgin. Não é nenhuma novidade Madonna beijar suas dançarinas em shows ou clipes, mas, no VMA, o
público se surpreendeu. Logo após o beijo em Britney, as
câmeras se voltaram para seu ex, Justin Timberlake. O astro não conseguiu disfarçar o choque.
> Novela Mulheres Apaixonadas (2003)
A história das personagens de Alinne Moraes (Clara) e Paula Picarelli (Rafaela) deu o que falar no país todo. A notícia de que uma cena de beijo entre duas mulheres iria ao ar na TV causou a maior polêmica no país. Resultado: Manoel Carlos decidiu-se por um selinho entre as duas durante a encenação da peça Romeu e Julieta na novela. Depois disso, ficou a impressão de que muitas mulheres – e meninas – tomaram coragem para assumir seus relacionamentos gays nas ruas.
> A dupla pop T.A.T.U. (2002)
Com o single All the Things She Said, a dupla Yulia Volkova e Lena Katina foi formada em 1999. Mas foi em 2002 que estouraram por aqui, com um clipe no qual trocavam carícias. Ligar a imagem das duas a um casal de lésbicas foi uma jogada de marketing. As meninas já
afirmaram que não são homossexuais.
Elas já beijaram meninas
“Cheguei a namorar uma menina pro uns dois meses, mas agora namoro um menino. Meus pais sabem, não vejo problemas. Acho que a galera está menos preconceituosa. Do ano passado pra cá, quando fiquei pela primeira vez com uma menina, notei que as pessoas não se chocam tanto rolam cenas de beijos entre meninas nas festas.”
C., 15 anos, da Capital
“A primeira vez que fiquei com uma menina foi há uns dois anos. Estávamos em casa, tipo uma reunião de amigas. Foi uma coisa da hora. Ainda hoje fico com meninas em festas, mas por diversão, não é pra chamar atenção dos meninos, não. Tenho bem claro na minha cabeça que gosto mesmo de meninos. Nas festas, está mais comum hoje em dia, mas normalmente são as mais velhas. Pra gurias mais novas é ainda novo. Acho que, nos dias de hoje, tá tudo meio estranho... Meninas mais novas ficam pela primeira vez muito precocemente, já estão bebendo na
sétima série!”
J., 18 anos, de Novo
Hamburgo
“Começou porque eu ficava com um menino que estava me traindo com outra. Nós duas, então, decidimos nos vingar e acabamos ficando. Isso foi no Ensino Médio. Depois disso, comecei a ir em festas GLS com amigos gays. Quando fiquei com essa guria, eu gostei, sabe. Comecei a olhar as meninas com mais ou menos os mesmos olhos que olhava os guris. Mas não tenho problema nenhum com isso, não é pra chamar atenção. Já fiquei com meninas que ninguém viu. E, apesar de já ter passado dos beijinhos uma vez, sei que nunca vou me apaixonar por uma menina. É diferente... Ainda prefiro homens.”
R. 19 anos, de Porto Alegre
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